Os fenômenos espíritas eram generalizados à época de Kardec?

Nessa primeira ocasião, nossos estudos giraram em torno de uma pergunta: Os fenômenos espíritas eram generalizados à época de Kardec? Relacionamos alguns fatos singelos mas um tanto significativos que nos inteiram um pouco mais do ambiente em que nasceu a Doutrina Espírita.

Em março vamos continuar explorando os assuntos da primeira publicação da Revue, o mês janeiro de 1858.

Michael Faraday e o Espiritismo

Michael Faraday Christmas Lectures
Michael Faraday durante as Royal Institution Christmas Lectures: demostrações públicas de experimentos científicos que acontecem anualmente em Londres por ocasião do Natal.

Michael Faraday, físico inglês, dentre várias contribuições para a ciência do eletromagnetismo, é conhecido pelo conceito das linhas de força, por identificar a relação entre eletricidade e magnetismo e por iniciar as Royal Institution Christmas Lectures: demostrações públicas de experimentos científicos que acontecem anualmente em Londres por ocasião do Natal. A lei da indução eletromagnética ganha seu nome, assim como a gaiola de Faraday e a unidade de medida da capacitância: o Farad.

Linhas de força tal como aparecem em Experimental researches in electricity, de Michael Faraday.

Durante o ano de 1853, Faraday publicou estudos sobre o fenômeno das mesas girantes — ‘Recherches experimentales sur les tables tournantes’ — na revista francesa  L’Illustration, que já apresentava uma série de comentários sobre o assunto:

“A Europa inteira, que digo eu, a Europa? nesse momento o mundo todo tem espírito perturbado por uma experiência que consiste em fazer girar uma mesa.   Em todas as partes só se ouve falar na mesa que gira; o próprio Galileu fez menos barulho no dia em que provou ser a Terra quem realmente gira em torno do Sol.

“Ide por este lado ou por aquele, nos maiores salões, nas mais humildes mansardas, no atelier do pintor, em Londres, em Paris, em Nova York, em São Petersburgo, e vereis pessoas gravemente assentadas em torno de uma mesa desocupada, que eles contemplam à maneira desses crentes que passam a vida a mirar seus próprios umbigos! Oh! a mesa! ela fez tábua rasa dos nossos prazeres noturnos; e seria inútil – mas, na verdade, disso se guardaram – que nossos maiores artistas despendessem gênio e espírito com o propósito de fazerem esquecer um único instante a mesa que gira… A mesa e o chapéu! Não mais se atende a nada, abandonadas ficaram quaisquer outras curiosidades!… Nos encontros inicia-se logo a conversação com a pergunta: Tendes visto a mesa mover-se? tendes visto girar o chapéu?”

Alexandre Paulin. Trecho publicado na revista L’Illustration em 14 de maio de 1853.

Un salon de Paris au mois de mai 1853
Journal L’Illustration — Un salon de Paris ao mês de maio 1853

Faraday elabora um interessante experimento e utiliza a ideia do efeito ideomotor para explicar o observado; no entanto, essa teoria não explica a comunicação de informações que transcendem o conhecimento dos presentes.

É sobretudo nas comunicações inteligentes que a intervenção de um poder estranho torna-se patente. Quando essas comunicações são espontâneas e estão fora do nosso pensamento e controle; quando respondem a perguntas cuja solução é ignorada pelos assistentes, faz-se necessário procurar sua causa fora de nós. Isso se torna evidente para quem quer que observe os fatos com atenção e perseverança; os matizes de detalhes escapam ao observador superficial.
Observação de Kardec em ‘Respostas dos Espíritos a algumas Perguntas’. Revista Espírita janeiro de 1858.
Journal L'Illustration em 14 de maio de 1853
Journal L’Illustration em 14 de maio de 1853

Civiltà Cattolica

Outro relato que consideramos foi o registrado por Kardec na Revista Espírita em janeiro de 1858, o mês que por ora estudamos. A revista católica romana Civiltà Cattolica, editada pelos jesuítas, publica uma série de artigos em que estudam as manifestações dos Espíritos. Diversos conceitos estão de perfeito acordo com a Doutrina codificada por Allan Kardec. O jornal católico francês L’Univers em março de 1856 traz citações a esses artigos de Roma e cai em mãos do codificador, que as inclui na Revue Spirite com os devidos comentários.

Interessante perceber, na leitura desse artigo, que os princípios esclarecidos pelo Espiritismo não são exclusivos de Allan Kardec ou da França àquela época; em verdade, se mostram mais ou menos evidentes em variados núcleos de conhecimento. Assim, a Doutrina Espírita não vem disputar as posições do pensamento tradicional; não vem como mais uma seita humana; em sua busca sincera pela Verdade, vem ampliar-nos o entendimento das leis que regem o mundo dos Espíritos, suas relações com o mundo terreno e as implicações morais dessas verdades sobre nossas próprias vidas. Não traz exclusivismos ou espírito separatista, mas vem comprovar o princípio sobre o qual se baseiam todos os cultos religiosos, “assinalando-lhes uma razão de ser” (O livro dos médiuns, parte 1: item 16). Mas é verdade que vem também corrigir erros seculares, reconduzindo o pensamento e o comportamento dos homens.

No Civiltà Cattolica, o tema em estudo ganha o título La moderna necromanzia. No L’Univers, o assunto pode ser encontrado na primeira página, quase ao final da coluna central.

Ferramentas

Valiosas para nós são as ferramentas disponibilizadas pela Biblioteca Nacional da França — o sistema Gallica — e pela Google — o Google Books (que traz diversas obras históricas na forma de eBooks gratuitos). E para completar nossa felicidade, os franceses têm o excelente hábito de deixar muitos registros sobre sua história.

A Revista Espírita é disponibilizada gratuitamente no site da FEB. A Revue em francês também se nos mostrará um tanto útil durante os estudos.

Magnetismo animal

A título de introdução, comentamos o importante papel do magnetismo animal estudado por Franz Anton Mesmer no século anterior à codificação do Espiritismo.

Um praticante do Mesmerismo utilizando o Magnetismo Animal.
Um praticante do Mesmerismo utilizando o Magnetismo Animal.

Vamos estudá-lo em diversos artigos publicados por Kardec ao longo da Revue.

Magnetismo animal

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