Uma década de manifestações 1848 — 1858

A história da Doutrina Espírita, de certo modo, é a história do espírito humano; teremos que estudá-la em todas as fontes, que nos fornecerão uma mina inesgotável de observações tão instrutivas quão interessantes, sobre fatos geralmente pouco conhecidos.

Introdução. Revista Espírita, janeiro 1858.

“[…] as cadeiras e as mesas que profetizam são um fato vulgar.”

Tertuliano em Apologética, capítulo XXIII. Escrito no ano 197.

Os fenômenos em Hydesville

Now (by the act of its wealthy and respected owner, Artemas W. Hyde, Esq.), bearing the inscription, "Here Spiritualism Originated, in 1848".
A casa da família Fox em Hydesville tal como ilustrada no livro The Missing Link in Modern Spiritualism, de Leah Fox.

A invasão espiritual do século XIX provocou na América o chamado moderno espiritualismo. Remetemos o leitor à leitura e conhecimento dos fenômenos de Hydesville, que grande interesse despertaram em 1848 no ânimo geral dos nova-iorquinos e dos espiritualistas em todo o mundo.

Uma detalhada descrição do caso pode ser lida no capítulo 4 do livro História do Espiritismo, escrito por Sir Arthur Conan Doyle — médico e escritor britânico, autor do personagem Sherlock Holmes.

A generalização das manifestações dos Espíritos inunda o território da cultura geral. Canções como a que apresentamos abaixo constituem trilha sonora ilustrativa do interesse que as comunicações do além despertavam na população. À partitura completa segue gravação feita ao violão pelo músico Lucas Gonze.

Softly, softly, hear the rustle
Of the Spirits’ airy wings;
They are coming down to mingle
Once again with earthly things,
With their rapping, and their tapping,
Rap-tap-tap to wake our napping,
In a restless dream of error:
Hear the weird the Spirit brings –
Rap-tap-tap lost friends are near you;
Rap-tap-tap they see and hear you;
In their mystic converse rappy
They declare good Spirits happy,

Gently, gently, they are timid,
If a medium is not there;
They may leave you in delusion,
And dissolve again to air.
Tis no fable – beings able –
Rap-tap-tap upon a table;
And their language is translated,
While they watch with guardian care.
Rap-tap-tap lost friends are near you:
Rap-tap-tap they see and hear you;
In their mystic converse rappy,
They declare good Spirits happy.

Constitui dever nosso reconhecer nos diversos fatos que ora relacionamos, o caráter divino, providencial do Espiritismo, notando que, no momento oportuno, toda uma movimentação se fez perceber ao redor do mundo, na manifestação de Espíritos das classes mais diversas, chamando a atenção do vulgo e polarizando o trabalho dos intelectuais. Essa movimentação encontrou o servidor pronto. Allan Kardec, desde cedo dedicado ao conhecimento da Verdade, valoriza o caráter científico do Espiritismo, em que o próprio homem se esforça por compreender a realidade nova que lhe é apresentada. (Ver Caráter da revelação espírita, item 13)

Jornais Espiritualistas

Os fenômenos de Hydesville foram o estopim de uma movimentação geral. Os Estados Unidos contaram com a criação de diversos jornais dedicados à publicação das notícias do além.

À época da primeira edição da Revue Spirite, Allan Kardec contava 16 jornais dedicados ao assunto nos Estados Unidos, sendo apenas o Spiritualiste de la Nouvelle-Orléans publicado na língua francesa. Já na Europa, havia apenas o Journal de l’Âme publicado em Genebra.

A Revue, vindo à luz em janeiro de 1858, constituiria publicação de valor inestimável para sua época e também gerações futuras. Mais tarde, outros jornais surgiriam: como o La Verité em 1863 na cidade de Lyon.

A Revista Espírita

Para melhor compreendermos o papel que desempenhou a Revista Espírita no desenvolvimento do Espiritismo, remetemos o leitor às considerações de Kardec feitas no artigo Caráter da revelação espírita:

Ora, cada centro isolado, circunscrito dentro de um círculo restrito, não vendo as mais das vezes senão uma ordem particular de fatos, não raro contraditórios na aparência, geralmente provindo de uma mesma categoria de Espíritos e, ao demais, embaraçados por influências locais e pelo espírito de partido, se achava na impossibilidade material de abranger o conjunto e, por isso mesmo, incapaz de conjugar as observações isoladas a um princípio comum. […]

Além disso, convém notar que em parte alguma o ensino espírita foi dado integralmente; ele diz respeito a tão grande número de observações, a assuntos tão diferentes, exigindo conhecimentos e aptidões mediúnicas especiais, que impossível era acharem-se reunidas num mesmo ponto todas as condições necessárias. […]

Era, pois, necessário grupar os fatos espalhados, para se lhes apreender a correlação, reunir os documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os assuntos, para as comparar, analisar, estudar-lhes as analogias e as diferenças. […]

Era preciso, numa palavra, um centro de elaboração, independente de qualquer ideia preconcebida, de todo prejuízo de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, embora contrária às opiniões pessoais. Este centro se formou por si mesmo, pela força das coisas e sem desígnio premeditado.

Caráter da revelação espírita, itens 51 e 52. Tradução de Guillon Ribeiro.

Le livre des Esprits, quarta edição publicada em 1860.
Le livre des Esprits, quarta edição publicada em 1860.

O Livro dos Espíritos, a primeira obra que levou o Espiritismo a ser considerado de um ponto de vista filosófico, pela dedução das consequências morais dos fatos; que considerou todas as partes da doutrina, tocando nas questões mais importantes que ela suscita, foi, desde o seu aparecimento, o ponto para onde convergiram espontaneamente os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, até então conservado no domínio das experiências curiosas. Se esse livro conquistou as simpatias da maioria é que exprimia os sentimentos dela, correspondia às suas aspirações e encerrava também a confirmação e a explicação racional do que cada um obtinha em particular. Se estivesse em desacordo com o ensino geral dos Espíritos, teria caído no descrédito e no esquecimento. Ora, qual foi aquele ponto de convergência? Decerto não foi o homem, que nada vale por si mesmo, que morre e desaparece; mas, a ideia, que não fenece quando emana de uma fonte superior ao homem.

Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos.

Idem. Nota referente ao item 52.

Caráter da revelação espírita foi publicado na Revue em setembro de 1867 e inserido, em 1868, devidamente ampliado, como capítulo primeiro do livro A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo.  Considerado por muitos como adequado a descrever o verdadeiro caráter da revelação espírita, o artigo foi editado ainda como brochura vendida à época pelo preço de 15 cêntimos.

Brasil

“O grande movimento preparatório do Espiritismo em todo o mundo tinha, no Brasil, a sua repercussão, como era natural.” (Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, capítulo 23)

Em julho de 1869 nasce no Brasil o jornal Eco d’Além-Túmulo, publicado bimestralmente sob responsabilidade de Luís Olímpio Teles de Menezes.

Jornal Écho d'Alêm-Tumulo, publicado no Brasil a partir de junho 1869.
Jornal Écho d’Alêm-Tumulo, publicado no Brasil a partir de julho 1869.

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